Em momento algum ele pensava ser grande.Ter amigos.Ser gente.Lutino gostava mesmo era de coisas idiotas.Não tinha paciência para o duradouro.
Pensava por partes.Mas não usava isso para se organizar.Quinze pras sete da manhã ele acorda imenso.Toma um café.Vai ao banheiro.O dia acaba.
Sua amplitude não demora.Lutino é um clichê candango.Neurastêmico.Vazio.Chato.Só.
Mas nesse dia ele não quis chegar em casa.Pensou na mulher do ônibus.Pensou no trabalho.Tropeçou em alguma coisa.Pensou no pai.Pensou na porra do passarinho.
Pensou sem querer.Tropeçou em si mesmo.Pensou no curso de cinema.Lembrou que sua vida é um cú.Talvez ele virasse um filme.Um monólogo pornô.Não.Se imaginou numa cena noir.
Acendeu um cigarro.
Chegou.Abriu a portaria com certa relutância.Escada interminável.Trinta e quatro degraus contados herméticamente a cada dia.Sempre pulando o primeiro.O último.
Pensou em fazer uma metáfora nesse instânte.Transtorno obssessivo compulsivo em primeiros degraus e metáforas.As manias são as únicas coisas que são verdadeiramente dele.
O que confere a Lutino uma certa identidade clandestina.Subversiva.Perigosa.Um manual prático de se levar a vida com vida.
Passou a chave na porta.Agachou.Pegou os panfletos de pizzaria.Os imãs de geladeira.O agaporne olhava pra ele com desdém.Ele fazia o mesmo.Pegou em baixo da pia
o alpiste.Abriu a gaiola.O pássaro fez que ia fugir.Ao mesmo tempo que Lutino queria-o para um tira-gosto sentia medo e até um certo pavor daquele bicho seguir viagem.Sumir.
Pronto.Bicho do caralho alimentado.
Sobre o sofá bege ele pega o controle.E isso sim pra ele é o máximo.Ser o dono da situação.Mudar de canal.Controlar a TV.Momentos únicos de raro prazer para Lutino.
Ápice de uma vida aparentemente medíocre.
Por um algum motivo sinais de canais fechados pegavam na sua televisão.Ligou na globo.Numa cozinha chique a Ana Maria fazia alguma coisa que cheirava bem.Pensou em comer.
Pensou na moça do caixa do Super Maia.Mudou de canal.Se sentiu sózinho.Não sei quem é mais filho da puta.Se Bauhauss ou Niemeyer.Arquitetura solitária.
Cidade planejada pra abrigar pessoas assim.Brasília acima de tudo é uma cidade carente.O pior de tudo é que ela faz por merecer.
terça-feira, 6 de abril de 2010
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