sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Qualquer- Parte II

Servia nele todas as roupas de chefe.Não negava uma.Por isso os que o viam não percebiam sua solidão, mas a estica.Vez ou outra não podia dar com a mão pro ônibus parar.Havia ganhado aquela polo da Lacoste pelo furo no sovaco.Pessoas ricas odeiam roupas reformadas.Lutino também.Mas ele adorava o jacarézinho.Então tudo bem.
Certo dia ao descer as rasas escadas do prédio.Atrasado.Seus fundilhos apareceram sem se fácil notar.Todos riam.Calado.Ele achava o máximo.
Logo ao chegar na capital.Pássaro.Presente de um colega de trabalho chato.Aceitou.Odiava pássaros.Quando criança seus pais adoravam levá-lo ao sítio do avô paterno.Pássaro era mato por lá.Malditos.A impressão é que quando ali chegava aqueles olhinhos coloridos se tranformavam em um vermelho diabólico.Coisa de criança.Tinha medo.Mesmo sabendo que seria ímpossível uma investida contra ele.
Nada pra fazer.O bicho quase morrendo de fome.Pet Shop.Alpiste.Não.Na verdade no começo Lutino tentou vendê-lo.Não deu certo.Nada mais a fazer senão aprender a cuidar daquele passarinho.Era um agaporne da espécie roseicollis.Mais uma grande merda aprendida.Comprou lá mesmo.Um livrinho de umas vinte páginas sobre aquele animal estúpido.
Descobriu que a vida de um pássaro desses chega a quase quinze anos.Subtraindo pela sua maldade.Somando as encheções de saco dos moradores das outras kits.Divididindo pela sua falta de paciência.Um resultado.Viveria pelo menos uns cinco anos com aquele bicho inútil do caralho.
Pensou em dar um nome.Veio lhe a vontade.Killer.E estava batizado.Pelo menos essa porra de pássaro ia lhe fazer companhia nas noites de sexta.Imaginou que um dia cantaria.Quem em Brasília canta?Ali ninguém é verdadeiramente feliz.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Qualquer- Parte I

Era breve.Assim como sua vida breve.Sua passagem pela Esplanada até se observar quase de frente a Catedral.A caminhada não lhe fazia bem.Brasília estava seca de doer e seus pulmões enfraquicidos de filtro vermelho saltavam pela boca.Breve.
Uma vida sem escolhas o tornou advogado.Péssimo.Filho de pai qualquer coisa do exército e mãe cooptiva,Lúcio Almeida de Oliveira entrou sem grande relutância a faculdade.No fundo também se orgulhava de ser doutor.Péssimo.Mas isso não o incomodava mais.
De repente como todos os que não se admiram como são.Mudou.Cedo.Recém-formado para o Planalto Central.Passou num concurso.Ganhava seus mil e poucos reais como assistente em algum gabinete encarpetado da Câmara.Foda-se.Gastava o que ganhava com cerveja,cigarros,livros de pássaros e revistinhas de sacanagem.
Ainda criança ganhou o apelido de Lutino.O que ele achava ser uma dedicação ao erro de se falar Lucinho.Grande merda de cara.Começou errado até pelo nome.
Há anos não se comunica com a família.Pra quê? A última vez que ligou foi pra ouvir que aquele tio-avô doente tinha morrido.Nunca o conheceu.Então que diferença isso faz?
Morava como todos os outros solitários de narinas cinzentas de Brasília.Mal.Numa quitinete de entre-quadra da 203.Sua salvação eram os jogos do Botafogo no buteco que havia bem em baixo de seu apartamento.Nem mesmo ele sabe se mudou pra lá pelo preço.Pelo bar.Ou pelo botafogo.
Não tinha ninguém.Nem namorada.Nem amigos. No máximo uma forçassão de barra com a linda.Mas não menos infeliz caixa do Super Maia.Triste cena foi quando por um ímpeto de imbecilidade congênita ele a chamou pra sair.-Não senhor.Você deseja mais alguma coisa senhor?Ridículo.Depois disso ele se pôs em seu lugar e percorria seis quadras a pé só pra mudar de supermercado.
Também não tinha carro.Mas nem por isso se sentia inferior.Tinha a desculpa de não ter onde estacionar.Engraçado é como as pessoas criam subterfúgios palpáveis para suas faltas.E ele tinha muitos.Um pra cada ocasião.Ele mesmo sabia que não colava.Insistia no erro.
Lutino era mesmo um bosta.Convencido.Admitido.Normal.Um bosta como todos os outros bostas.