terça-feira, 6 de abril de 2010

Qualquer-Parte IV

Em momento algum ele pensava ser grande.Ter amigos.Ser gente.Lutino gostava mesmo era de coisas idiotas.Não tinha paciência para o duradouro.
Pensava por partes.Mas não usava isso para se organizar.Quinze pras sete da manhã ele acorda imenso.Toma um café.Vai ao banheiro.O dia acaba.
Sua amplitude não demora.Lutino é um clichê candango.Neurastêmico.Vazio.Chato.Só.
Mas nesse dia ele não quis chegar em casa.Pensou na mulher do ônibus.Pensou no trabalho.Tropeçou em alguma coisa.Pensou no pai.Pensou na porra do passarinho.
Pensou sem querer.Tropeçou em si mesmo.Pensou no curso de cinema.Lembrou que sua vida é um cú.Talvez ele virasse um filme.Um monólogo pornô.Não.Se imaginou numa cena noir.
Acendeu um cigarro.
Chegou.Abriu a portaria com certa relutância.Escada interminável.Trinta e quatro degraus contados herméticamente a cada dia.Sempre pulando o primeiro.O último.
Pensou em fazer uma metáfora nesse instânte.Transtorno obssessivo compulsivo em primeiros degraus e metáforas.As manias são as únicas coisas que são verdadeiramente dele.
O que confere a Lutino uma certa identidade clandestina.Subversiva.Perigosa.Um manual prático de se levar a vida com vida.
Passou a chave na porta.Agachou.Pegou os panfletos de pizzaria.Os imãs de geladeira.O agaporne olhava pra ele com desdém.Ele fazia o mesmo.Pegou em baixo da pia
o alpiste.Abriu a gaiola.O pássaro fez que ia fugir.Ao mesmo tempo que Lutino queria-o para um tira-gosto sentia medo e até um certo pavor daquele bicho seguir viagem.Sumir.
Pronto.Bicho do caralho alimentado.
Sobre o sofá bege ele pega o controle.E isso sim pra ele é o máximo.Ser o dono da situação.Mudar de canal.Controlar a TV.Momentos únicos de raro prazer para Lutino.
Ápice de uma vida aparentemente medíocre.
Por um algum motivo sinais de canais fechados pegavam na sua televisão.Ligou na globo.Numa cozinha chique a Ana Maria fazia alguma coisa que cheirava bem.Pensou em comer.
Pensou na moça do caixa do Super Maia.Mudou de canal.Se sentiu sózinho.Não sei quem é mais filho da puta.Se Bauhauss ou Niemeyer.Arquitetura solitária.
Cidade planejada pra abrigar pessoas assim.Brasília acima de tudo é uma cidade carente.O pior de tudo é que ela faz por merecer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Qualquer- Parte III

Éra julho de 2002.O dia nem ele sabia.Olhou em sua volta e viu os carros passando.As pessoas também.Ele não.Lutino só olhava.Vontade de se jogar.Covarde.Brasília se retorcia com o calor.Puxou mais um cigarro.Fumou.
Queria mesmo era andar pra trás.Então virou-se.O Conjunto parecia mais perto do que imaginara.Era preguiçoso também.Precisava de uma desculpa.Uma virose talvez.Isso.Os passos engenhosos agora seguiam para a rodoviária.
Por um instante ele negou-se.Nele sobravam lapsos.Faltavam-lhe tudo.Inclusive atitude.Dessa vez não.Lutino queria mesmo ser alguém.Mas não era.Os outros pra ele tem cara de bosta.Não se olha no espelho.Caminha.
Era ano de copa.E de esperança.As pessoas misturavam o azul e amarelo das camisas.A bandeira parecia ter incorporado um vermelho incomum.Lula.Aquele filho da puta barbado com apelido de quaquer coisa do mar fazia mesmo as pessoas acreditarem que algo de melhor lhes aconteceriam.Medíocres exclamou ele.Narrando os outros e a si mesmo.
A cidade cinza estava pintada.Olhos e janelas.Corpo e alma.Se essa capital de merda tivesse uma.
Quis veementemente estar em casa.Não havia nenhum ônibus pra L2 norte.Só um.W3 sul-L2 sul-L2 norte-W3 norte.Foda-se.E pegou esse mesmo.
Não estava lotado.Uma gorda entrou.Sentou ao lado de Lutino.Merda!Como se não bastasse puxxou conversa.E o Brasil ein?Malditos sejam os coletivos.Ahn?Respondeu como num corte.O Brasil!Você acha que vai ganhar?Tomara.Tomara.Pela janela passava o Pátio.E o Ronaldinho?A vontade era pedir silêncio.É.Ele é bom.Lutino já estava de saco cheio.Consciência pesada e saco cheio.O Azeite vai estar lotado mais tarde.Você vai?Não minha senhora.Eu não moro aqui.Aliás.Moro.Na asa norte.Foda-se.Já estava puto.levantou-se.Puxou a cordinha e desceu.508 sul.Dois contos jogados fora.
Do outro lado da W3 o Espaço Cultural Renato Russo.Não tinha paciência pra arte.Quis entrar.Fechou o sinal.Atravessou.Entrou.Na entradinha um cartaz convidava para um curso de cinema.Curso de cinema?Logo ele?Pegou o telefone com o interesse mais desinteressado do mundo e continuou.Dia perdido.Gorda escrota.Curso de merda.Brasília que não era dele.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Qualquer- Parte II

Servia nele todas as roupas de chefe.Não negava uma.Por isso os que o viam não percebiam sua solidão, mas a estica.Vez ou outra não podia dar com a mão pro ônibus parar.Havia ganhado aquela polo da Lacoste pelo furo no sovaco.Pessoas ricas odeiam roupas reformadas.Lutino também.Mas ele adorava o jacarézinho.Então tudo bem.
Certo dia ao descer as rasas escadas do prédio.Atrasado.Seus fundilhos apareceram sem se fácil notar.Todos riam.Calado.Ele achava o máximo.
Logo ao chegar na capital.Pássaro.Presente de um colega de trabalho chato.Aceitou.Odiava pássaros.Quando criança seus pais adoravam levá-lo ao sítio do avô paterno.Pássaro era mato por lá.Malditos.A impressão é que quando ali chegava aqueles olhinhos coloridos se tranformavam em um vermelho diabólico.Coisa de criança.Tinha medo.Mesmo sabendo que seria ímpossível uma investida contra ele.
Nada pra fazer.O bicho quase morrendo de fome.Pet Shop.Alpiste.Não.Na verdade no começo Lutino tentou vendê-lo.Não deu certo.Nada mais a fazer senão aprender a cuidar daquele passarinho.Era um agaporne da espécie roseicollis.Mais uma grande merda aprendida.Comprou lá mesmo.Um livrinho de umas vinte páginas sobre aquele animal estúpido.
Descobriu que a vida de um pássaro desses chega a quase quinze anos.Subtraindo pela sua maldade.Somando as encheções de saco dos moradores das outras kits.Divididindo pela sua falta de paciência.Um resultado.Viveria pelo menos uns cinco anos com aquele bicho inútil do caralho.
Pensou em dar um nome.Veio lhe a vontade.Killer.E estava batizado.Pelo menos essa porra de pássaro ia lhe fazer companhia nas noites de sexta.Imaginou que um dia cantaria.Quem em Brasília canta?Ali ninguém é verdadeiramente feliz.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Qualquer- Parte I

Era breve.Assim como sua vida breve.Sua passagem pela Esplanada até se observar quase de frente a Catedral.A caminhada não lhe fazia bem.Brasília estava seca de doer e seus pulmões enfraquicidos de filtro vermelho saltavam pela boca.Breve.
Uma vida sem escolhas o tornou advogado.Péssimo.Filho de pai qualquer coisa do exército e mãe cooptiva,Lúcio Almeida de Oliveira entrou sem grande relutância a faculdade.No fundo também se orgulhava de ser doutor.Péssimo.Mas isso não o incomodava mais.
De repente como todos os que não se admiram como são.Mudou.Cedo.Recém-formado para o Planalto Central.Passou num concurso.Ganhava seus mil e poucos reais como assistente em algum gabinete encarpetado da Câmara.Foda-se.Gastava o que ganhava com cerveja,cigarros,livros de pássaros e revistinhas de sacanagem.
Ainda criança ganhou o apelido de Lutino.O que ele achava ser uma dedicação ao erro de se falar Lucinho.Grande merda de cara.Começou errado até pelo nome.
Há anos não se comunica com a família.Pra quê? A última vez que ligou foi pra ouvir que aquele tio-avô doente tinha morrido.Nunca o conheceu.Então que diferença isso faz?
Morava como todos os outros solitários de narinas cinzentas de Brasília.Mal.Numa quitinete de entre-quadra da 203.Sua salvação eram os jogos do Botafogo no buteco que havia bem em baixo de seu apartamento.Nem mesmo ele sabe se mudou pra lá pelo preço.Pelo bar.Ou pelo botafogo.
Não tinha ninguém.Nem namorada.Nem amigos. No máximo uma forçassão de barra com a linda.Mas não menos infeliz caixa do Super Maia.Triste cena foi quando por um ímpeto de imbecilidade congênita ele a chamou pra sair.-Não senhor.Você deseja mais alguma coisa senhor?Ridículo.Depois disso ele se pôs em seu lugar e percorria seis quadras a pé só pra mudar de supermercado.
Também não tinha carro.Mas nem por isso se sentia inferior.Tinha a desculpa de não ter onde estacionar.Engraçado é como as pessoas criam subterfúgios palpáveis para suas faltas.E ele tinha muitos.Um pra cada ocasião.Ele mesmo sabia que não colava.Insistia no erro.
Lutino era mesmo um bosta.Convencido.Admitido.Normal.Um bosta como todos os outros bostas.